segunda-feira, 12 de outubro de 2009

USF - SANTANA



A Unidade de Saúde da Família de Santana compõe o Distrito Sanitário III e localiza-se no bairro de Casa Forte, tendo como limites Casa Forte ao norte, Parnamirim a leste, rio Capibaribe ao sul e Poço da Panela a oeste. Assiste a população das microáreas de Santana, de Lemos Torres e de Vila Vintém, que abrangem cerca de 760 famílias.

Essa região possui relevo plano, portanto não há deslizamentos ou desmoronamento durante o período das chuvas. Entretanto, há problemas de saneamento básico, como esgoto à céu aberto, trechos sem calçamento e escasso abastecimento de água. Algumas moradias até possuem o sistema de abastecimento, todavia a água chega esporadicamente. Visando minimizar a falta de água, foram feitos poços na comunidade, porém testes indicam que boa parte desses contém coliformes fecais e, ainda assim, continuam sendo utilizados.



As comunidades são atravessadas por rios que, em épocas chuvosas, ocasionam cheias. Essas somam-se ao deficiente sistema de esgoto, no qual é jogado lixo, apesar de existir coleta regular. A junção desses fatores cria fontes de contaminação, dentre as quais a leptospirose evidencia-se. Além dos focos de ratos, também há grande quantidade de escorpiões e de Aedes aegypt , tanto que os moradores pedem constantemente venenos ao ASACE para o combate dessas pragas.


O solo é ocupado com muitas residências e pouco comércio e serviços. As moradias são pequenas e de condições precárias. Algumas são, inclusive, palafitas construídas sobre canais, as quais são alagadas quando chove. Além disso, são construídas de forma justaposta, aparentando que uma é continuidade da outra. Também há muitos barracos sob o viaduto próximo ao “Carrefour”. Apesar dessas más condições, ainda há criadouros de animais; exemplos: galinhas, porcos e cavalos.


Há uma Associação de Moradores localizada em Lemos Torres, que desenvolve diversas atividades, dentre as quais tivemos contato com reforço escolar para crianças do maternal até fundamental I. Foi-nos dito que a Associação tem reuniões quinzenais com os comunitários e que também distribui sopão.

Foi muito evidenciado pelo presidente da Associação a existência de um terreno de grande porte que é propriedade de uma empresa particular, o qual está sendo feito de depósito de lixo pela população circundante. O referido terreno também é gerador de pragas.

O posto de saúde não é muito movimentado. Não foi observado grande lotação, apesar das atividades lá desenvolvidas. Grupo de idoso e hipertensão, de diabetes, de prevenção na mulher e de terapia comunitária são alguns exemplos das atividades da unidade de Santana.

Algo importante é a educação sexual . Os agentes de saúde e o técnico em enfermagem informaram que crianças em torno de 9 anos praticam sexo e não aceitam os preservativos fornecidos pela unidade, embora exista um programa de educação sexual na unidade.

A população não demonstra muito interesse pelas funções da unidade de saúde da família por falta de conhecimento ou por comodidade. Por isso, às vezes, os tratamentos e as prevenções não são realizados satisfatoriamente.

Unidade de Saúde da Família José Severiano da Silva

A Unidade de Saúde da Família José Severiano da Silva abrange duas comunidades: Capilé e Canal do Arruda, sendo as duas bastante semelhante socialmente. A Unidade atende aproximadamente 8.000 pessoas, sendo dividida em 11 micro áreas, tendo cada uma a ACS responsável por atender cerca de 200 famílias.

Esgoto, lixo a céu aberto, exposição a animais errantes e pontos de drogas são as condições que o território oferece aos moradores da região. Foi possível observar que as características do ambiente são as principais responsáveis pelos focos de doenças, tais como: dengue, filariose e leptospirose. Outras manifestações clínicas como diabetes e hipertensão, doenças não relacionadas diretamente ao ambiente, são bastante comuns na área do Posto de Saúde. Enfim, em nossas visitas, encontramos fatores favoráveis ao desequilíbrio do processo saúde-doença espalhados por toda a comunidade, seja no território, seja nos hábitos da população.

Com a vivência mais intensa e com o estudo mais detalhado sobre a complexidade do Sistema de Saúde pudemos entender o que tem sido feito para mudar a realidade.

O Posto de Saúde da Família existe em um prédio doado pela Associação dos Moradores que foi desfeita há algum tempo. É um espaço bem dividido e organizado na medida do possível, pois é pequeno para atender duas comunidades. Infelizmente falta conforto para os pacientes e uma sala de apoio para se guardar itens pessoais e servir de descanso para os funcionários. Mas o destaque do Posto de Saúde são os profissionais. Isso porque eles são muito capacitados e o interesse deles transparece no exercício de suas atividades. A presença de dentista, médicos, enfermeiras e ACSs proporcionam uma assistência bem abrangente aos usuários. Vale ressaltar também a importância das palestras que são ministradas pelas ACSs e enfermeiras semanalmente direcionadas a promoção de saúde, tentando sempre conscientizar as pessoas. Essas palestras são realizadas no próprio Posto de Saúde direcionadas a certos grupos da população, como grávidas, diabéticos e hipertensos, no intuito de reforçar a atenção dessas pessoas para o cuidado com seu estado de saúde. A visita do ACS na casa das famílias é constante e reflete a tentativa de oferecer um suporte integral à população.

Além deles, os ASAs também realizam visitas nas casas ensinando as pessoas a não deixar água parada e a tratar a água potável, por exemplo. Os ASAs também cuidam dos esgotos a céu aberto, colocando produtos químicos para quebrar o ciclo de vida de larvas que crescem nessas águas sujas.

Durante a visita ao território conhecemos outras atividades sociais desenvolvidas na comunidade como a Pastoral da Criança, que realiza um trabalho assistencial na comunidade do Capilé. Além disso, existem na área creche, igrejas, escola e programa de distribuição de leite.

Nas comunidades do Capilé e do Canal do Arruda, verificamos a existência de diversos comércios informais, grande parte estabelecida em um cômodo dentro da própria casa. Esse tipo é mais simples com poucos produtos para vender. O dinheiro arrecadado é convertido para aumentar a renda da família. Outros estabelecimentos comerciais são maiores e vendem produtos mais diversos e estão localizados numa área mais movimentada do bairro.

Programas governamentais como o Prometrópole, apesar de não concluído, já promoveu mudanças consideráveis na região ao transferir famílias de locais de risco para habitações de melhores condições nos Conjuntos Habitacionais.

As pessoas da própria comunidade são carentes, simples e boa parte não tem instrução. Mesmo assim, conversando com alguns moradores, pudemos perceber que a população em geral adquiriu um pouco de consciência sobre os cuidados com a saúde a partir do trabalho dos ACSs e ASAs visitando a comunidade. Isso é algo estimulante para quem trabalha na promoção de saúde dia após dia em uma comunidade repleta de problemas e contrastes e é satisfatório ao mesmo tempo, pois é uma prova real de que esse trabalho tão difícil não é realizado em vão.


Clique aqui para assistir um clipe sobre as comunidades

Apresentação Clube dos Delegados - II Unidos


A comunidade de II Unidos, possui uma topografia variada, indo de morros na área alta, a terrenos de margem de rio, na área baixa. Possui, também, diversos tipos de moradias, desde casas em condições precárias a grandes casas de alvenaria, considerada uma área mais nobre. Seu sistema de esgoto vai desde a rede pública, fossas sépticas a canais a céu aberto que deságuam no Rio Beberibe. E assim como as diversas comunidades visitadas, apresenta problemas ambientais, socioculturais e de saúde.

A área próxima à Unidade de saúde Clube dos Delegados apresenta um contexto muito diferente as áreas mais afastadas. Vizinho à USF existem Conjuntos Habitacionais construídos pela Prefeitura, onde as ruas são calçadas, há rede de esgoto, coleta de lixo e abastecimento de água regular. Porém, esta não é a realidade vivida na comunidade de Dois Unidos.


Nas áreas de morro, essa questão do lixo é ainda mais preocupante. Como o terreno é muito acidentado, não é possível a subida dos apanhadores de lixo, mesmo aqueles com carroças, acarretando em vários problemas, pois o lixo começa a ser depositado ao lado das casas, onde crianças brincam, ou até mesmo em cima das casas, assim como foi observado por nós em um barranco, no qual havia uma casa logo em baixo. O fornecimento de água foi cortado devido a roubo de água por moradores de outra comunidade próxima. Dessa forma, moradores da parte alta da comunidade têm que descer o morro para carregar água, dificultando ainda mais a vida desses moradores, ainda mais de idosos, que por necessidade, descem e sobem os morros acidentados a todo momento para sobreviverem. Na parte baixa da comunidade, o lixo é acumulado nas ruas e/ou calçadas dando margem ao aparecimento de ratos, baratas, escorpiões e até cobras que podem causar sérios transtornos para a população. Na divisa com Caixa D’água, ainda na parte baixa, vimos o acúmulo de lixo sobre o Rio Beberibe, um dos principais fatores responsáveis pelas enchentes nessa área em épocas de chuva.


Uma grande preocupação também são os deslizamentos barreiras no alto dos morros, onde vimos construções sendo erguidas a poucos metros de um grande barranco, e também aos arredores da Unidade de Saúde, como observamos com a ocupação indiscriminada de casas, e onde até uma estação elevatória, construída para controlar os dejetos provenientes do Conjunto Habitacional, foi invadida e transformada em habitação.


Um dos principais problemas também encontrados na comunidade é a questão de esgoto a céu aberto. Até mesmo as construções do Conjunto Habitacional feitas pela prefeitura perto da Unidade de Saúde, possuem uma parte de seu esgoto para fora das galerias e que acaba tomando as ruas. Em época de chuva essa situação piora ainda mais. Começam a aparecer diversas doenças na comunidade, como leptospirose, dengue, filariose, cólera, dentre muitas outras. As principais acometidas com essas doenças são as crianças, que vivem brincando descalças perto dos córregos e dos esgotos a céu aberto, e que geralmente possuem uma alimentação precária, contribuindo ainda mais para a gravidade das patologias.


Quanto à Unidade de Saúde da Família do Clube dos Delegados, pode-se ver que é uma unidade bastante nova, recém-inaugurada no dia 14 de Agosto de 2009, uma semana antes da nossa chegada à unidade. Ela possui uma boa estruturação, com ambiente climatizado com vários ventiladores na recepção, segurança patrimonial, salas e consultórios bem organizados, com equipamentos novos, sala de expurgo e esterilização novas e organizadas, e ambiente agradável. Há também consultório odontológico, consultórios médicos e sala de vacinação que pode atender às necessidades de saúde das famílias que se situam próximo ao posto, além de enfermeiros e médicos, necessários para o bom funcionamento da unidade.



Pudemos ver também diversas manifestações sociais e culturais através de igrejas católicas, evangélicas e centros espíritas, além de associação de moradores, escolas, projetos como o Pró-Metrópole, comércio diversificado, incluindo um grande mercado popular e o terminal de ônibus de Dois Unidos.

Porém, sentimos que ainda falta um programa que tenha como objetivo a conversa com as famílias, a fim de educá-las e conscientizá-las de que simples medidas podem evitar muitas doenças e, evitando-se essas doenças, diminuir-se-iam os gastos e a demanda das USF, fazendo com que os investimentos tenham por objetivo melhorar o ambiente em que a população vive, para depois garantir a qualidade do atendimento na Unidades de Saúde da Família, as quais visam o tratamento de doenças que poderiam ser evitadas com uma simples reeducação ou prevenção. Esses projetos de re-educação, ou até mesmo educação sanitária, poderiam ser feitos nas escolas, em casa, ou nas reuniões comunitárias com o intuito de levarmos uma melhor qualidade de vida à nossa população.

domingo, 11 de outubro de 2009

Comunidade córrego da fortuna

ÁREA: córrego da fortuna-II irmãos.

são 8 micro áreas ,apresentando uma micro área inativa devido a falta de uma,das 8 ACS do comunidade do córrego da fortuna.

TOPOGRAFIA: alta e baixa. Regiões íngremes acumulam areia em tempo de chuva, formando muita lama em certos pontos da comunidade.sendo também presente encostas com risco de deslizamento.

USO DO SUBSOLO: solo agrícola e residencial. Há também, áreas com vegetação natural bastante arborizada, Logo há baixa incidência de doenças respiratórias.

O terreno onde esta a comunidade é propriedade da UFRPE. A comunidade de córrego da fortuna é resultado de uma invasão populacional, geradora de um crescimento social desordenado na área, conseqüentemente há uma problemática nas condições de moradia e serviços sócio-ambientais, prejudicando inclusive a utilização adequada do solo.

POPULAÇÃO: a comunidade do córrego possui aproximadamente 4100 ,formando 1160 famílias, sendo apenas 1039 famílias cadastradas e 914 com visitas domiciliares mensais, em media 4 pessoas por família.

CONDIÇOES DE MORADIA :precária na maioria dos casos.O acumulo de materiais de construção,assim como a presença marcante do lixo a céu aberto em determinados pontos gera a presença de escorpiões e de ratos,familiarizados com essas condições.há problemas com a limpeza de calhas e prevenção de águas paradas permitindo a proliferação de mosquitos e pragas.existe um problema na desratização,haja vista,ser um procedimento restrito a 10 dedetizações semanais para toda a comunidade,devido a quantidade limitada de funcionários e equipamentos necessários ao serviço.

ABASTECIMENTO DE ÁGUA: O abastecimento de água é um sistema comunitário.nesse sistema de fornecimento de água,há presença de bombas e calhas para obtenção de água de poços.O serviço da compeza não esta presente na comunidade devido o auto custo requerido.Desse modo os moradores pagam uma taxa fixa mensal de 10,00 reais,para manutenção e fornecimento de água a uma empresa contratada.Não há rede encanada,já que esta também é serviço da compesa,ficando desse modo o esgoto a céu aberto.

SISTEMA E ESGOTO:Não há encanação,pois este seria um serviço da compesa,assim como a manutenção do sistema de esgoto.Encontra-se,desse modo,esgoto a céu aberto e fossas residenciais,estas muitas vezes despejadas no esgoto a céu aberto,segundo moradores da região.além disso,há um sistema de drenagem precário e ineficiente nas ruas da comunidade.

COLETA DE LIXO: A coleta de lixo ocorre de maneira indireta ,devido à dificuldade de acesso ,ocorre o acumulo de lixo em determinados pontos.Dessa forma o lixo é amontoado nesses pontos da comunidade,potencializando os riscos à saúde publica.

EQUIPAMENTOS SOCIAIS: A comunidade se articula pela associação dos moradores e é composta por:um clube que realiza atividades esporádicas;uma escola superlotada;um campo de futebol em condições precárias e uma farmácia.A questão religiosa é diversificada:apresenta quatro igrejas evangélicas,dois centros espíritas ,uma igreja católica e um terreiro de umbanda.A comunidade ainda apresenta duas padarias,vários matadouros,uma academia de ginástica e cinco supermercados

ANIMAIS ERRANTES:A comunidade apresenta a circulação de vários animais,como cães,gados,porcos,aves domesticas e urubus atraídos pelo lixo (existe até urubu de estimação em uma casa da comunidade,o bento barruam).A presença desses animais aumenta os riscos á saúde,,pois o lixo a céu aberto pode ser espalhado por esses animais,alem das doenças que eles podem transmitir naturalmente.Os criatórios de porcos representam grande ameaça a saúde,pois a topografia do terreno propicia a dispersão destes dejetos pelo ambiente.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Comunidade Córrego da Furtuna

O documentário “Estamira” relata a história de uma senhora em meio a um lixão. Um filme bastante crítico que expõe, claramente, o descaso governamental para com a sociedade mais carente, não deixando de enfocar a influência do meio na questão Psico-social
e consequentemente na saúde, pois a mesma não é somente o bem estar físico, e sim uma complexa rede que inclui fatores sociais, ambientais e psicológicos. Além disso, possui elevada carga ética e emocional que são ministradas pelas falas da personagem Estamira.
Estamira é uma mulher que teve uma vida conturbada desde a infância. Quando criança sofreu abuso sexual, fato que volta a acontecer durante sua vida adulta, e que a faz perder gradativamente a confiança no outro. O fato de a personagem ter passado por relacionamentos difíceis –nos quais, a traição se fez presente- e que a levara a abdicar de seu relacionamento com a mãe, repercutiu de forma decisiva na sua “qualidade de vida”. E a última separação parece ter sido o “limite” do que se pode suportar. Ela, então, se entrega a miséria do lixão.
“Montanhas que fumaçam” esta é a definição do meio que Estamira vive. Não são vulcões, mas montanhas de lixo em processo de decomposição que liberam gases tóxicos e permitem a proliferação de inúmeras infestações de animais nocivos à saúde humana. Dessa forma, doenças como a leptospirose, as infecções intestinais, o botulismo, a cólera e a dengue tornam-se freqüentes e alarmantes. Logo, a constatação de que homens, insetos e urubus competem pelos restos encontrados no lixão é intrigante, e nos faz refletir sobre a nossa posição diante da dor do outro.
Nessas condições, não se pode falar de “saúde” física quando ao homem é negado o direito ao acompanhamento psicológico, social e educacional. Acompanhamentos, estes, que não apenas permitam uma melhor qualidade de vida para o indivíduo doente, mas que, também, atuem de forma preventiva.
No documentário, falas como: “Eu sou Estamira, eu to cá, eu to lá, eu to em todo lugar’’; “esqueceram da gente, somos tratados como monstros”, revela a invisibilidade perante o governo e a sociedade. Mostram, também, a proporção do problema e até onde pode chegar a falta de cuidado e responsabilidade daqueles que governam. Portanto, a percepção de que somos todos sujeitos e agentes no meio e que não podemos permitir a existência de “Estamiras” em nossa sociedade, é fator fundamental para a transformação do meio. E para isso, é necessário nosso envolvimento nos questionamentos, na cobrança e nas questões político-sociais.
Em Estamira pouco pode se falar de esperança, já que ela perdera - segundo a medicina - o senso comum, a percepção do real, a crença no outro e naquilo que ele pode oferecer. Já não são válidas as instruções médicas, tão pouco, as orientações e interferências, tão pouco, as orientações e interferências daqueles que a cercam. Para a personagem, a vida se resume ao que o lixão proporciona. São poucos os momentos de 'lucidez', contudo, suficientes para que nela seja despertado o desejo de justiça e revolta social.

USF SANTANA - RESENHA SOBRE O FILME ESTAMIRA

SOBRE A TERCEIRA MARGEM DO RIO, ESTAMIRA E A VISITAÇÃO À COMUNIDADE LEMOS TORRES – EM SANTANA.

“Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais.(...)
Ninguém é doido. Ou, então, todos.”
(João Guimarães Rosa – Primeiras Estórias)



O conto “A Terceira Margem do Rio”, de Guimarães Rosa, relata de maneira bastante poética a trajetória de um pai de família que – ao se perceber no início da sua loucura – decide viver à margem da sociedade, assim cria uma terceira margem para o rio e lá vivendo até a sua morte. Guimarães, que – de formação – era médico, percebia o sofrimento dos acometidos por transtornos mentais e a incapacidade desta sociedade os acolher em seu meio. Não é à toa que – transcorridos 47 anos da publicação daquele conto, hoje, no Brasil ainda se debate bastante sobre a Reforma Psiquiátrica.
Estamira – em tempos de novelas indianas – poderia, para quem ainda não assistiu ao filme, significar a próxima novela das oito: em uma cidade lá no leste do Oriente Médio, chamada Estamira , vive uma mulher, com nome homônimo à sua terra natal, aprisionada pela cultura arcaica do Talibã, foi condenada a se casar com um cruel e asqueroso senhor Talibanês, mas o seu coração está entregue ao jovem forte, dominador “Libertanês”. Bem, isso é o que – talvez, algum “noveleiro” escrevesse.
Contudo, o filme revela uma outra Estamira – cuja história de vida é a “cara” das desigualdades Brasileiras. Assim, Marcos Prado, um exímio fotógrafo e sensível cineasta tenta – em 115 minutos – mostrar a trajetória de uma mulher cujos abusos se iniciaram na mais tenra idade (o primeiro estupro aos nove anos), a compulsória experiência no prostíbulo – desde os doze anos até os dezessete, quando conhece aquele que viria a ser o seu primeiro esposo. Semelhante a um conto de fadas, a protagonista encontrou o príncipe que a retirou das masmorras da prostituição e lhe deu um lar, na Rua Castelo de Guimarães... Embora pareça um conto de fadas, na película não se pode dar por encerrada a história com esse desfecho, porque não tardou muito para as brigas, os maltratos, ciúmes e todos os desajustes familiares destronarem a “princesa” do seu “Castelo”. Ademais, sob a pressão de Lepoldo, o marido, Estamira decide internar forçadamente a sua genitora (fato do qual nunca viria a se perdoar) que apresentava transtornos mentais – herança herdada pela protagonista. Mais tarde, ela, Estamira, também será levada amarrada a um hospício, semelhante a um monstro – eram assim tratados os doentes psquiátricos (ainda bem que vem mudando!!!)mas consegue se livrar da internação. Para piorar ainda mais a vida daquela personagem, com os seus delírios, ousa blasfemar contra Deus-um ser intocável numa sociedade erguida por pilares judaico-cristãos, como a nossa. Ora, só um “doido” teria uma coragem dessas!!!
Só bastavam os estupros para ter desmantelado qualquer pessoa por toda uma existência...
Destarte, Estamira parece não caber nas margens dessa ‘civilização’ e decide criar, semelhante ao conto de Guimarães , uma terceira margem para viver. E encontra, como corrobora a placa exibida no documentário: GRAMACHO – ÚLTIMA SAÍDA – 1Km.
Então, o Jardim Gramacho, grande aterro sanitário no Rio de Janeiro, na realidade um eufemismo de “lixão”, é – de fato – uma porta que se abre com mais de uma saída, como diria João Cabral de Melo Neto, onde cada individuo é visto de acordo com a sua idiossincrasia, são seres humanos que misturados aos lixos se transformam em descuidos sociais.
Lá, no lixão, Estamira vive mais tranquila do que no hospício, parece ter amigos. Impressiona ainda o fato de – apesar de trabalhar sobre o lixo, a sua casa é muito limpa com o terreiro bem varrido! Ali, ela se sente tanta gente que é capaz de repetir o próprio nome constantemente, como se dissesse EU EXISTO! Há quem pense se tratar de uma louca, com uma eloqüência exacerbada, mas muitas das reflexões pronunciadas por ela, remetem às provocações de Sócrates, Platão, Nietzsche, Kant, Schopenhauer, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Augusto Cury e tantos outros que se debruçaram sobre a alma humana. Sob a lente de Marcos Prado, Estamira ganha visibilidade e expande sua voz para uma sociedade que insiste em esconder favelas com outdoors, negligencia e abusa das suas crianças, aceita as desigualdades sociais como destino e modifica a taxionomia – reduz seres humanos a urubus!!!
Infelizmente, a Comunidade Lemos Torres – em Santana – não se deparou com nenhum Marcos Prado, pelo menos no nosso grupo-para mostrar ao povo recifense, quiçá ao Brasil, a tensão vivida por aquela comunidade.
Hoje, Lemos Torres está situada em uma área nobre da Região Metropolitana do Recife, envolta por arranha-céus, shopping, quartel para filhos de ricos (sim, pois o CPOR foi criado para alistamento da classe rica do Estado, porque pobre vira soldado, mas rico se torna Oficial da Reserva!!!), Bares, Restaurantes e – até – Mac Donald’s (Tenha um Mac Dia Feliz – povo da Lemos Torres, poderia ser a voz daquele palhaço!), exatamente na entrada da comunidade.
Embora, geograficamente, esteja localizada em uma região privilegiada, aquela comunidade sofre com desemprego, lixos, casas de palafitas sobre um canal, crianças mal nutridas, filaríose, drogas (inclusive o alcoolismo), falta de água e ainda a tensão de saber que – a qualquer momento- serão despejados, mesmo com indenização, para algum lugar dessa cidade, sob o argumento da construção de uma perimetral naquele lugar, mas se sabe dos interesses financeiros das grandes construtoras por aquela área- são “os espertos ao contrário”...
Pois é, Comunidade Lemos Torres, não transformaremos você em filme, mas – oxalá – muitas pessoas leiam o blog!!!
Ao terminar o filme, volta-se à realidade. Comentar-se-á a película por um dia, uma semana, um mês – talvez. Todavia, as impressões serão apenas as (pré) sentidas, porque as verdadeiras continuarão lá com as milhares de Estamiras por esse Brasil a fora: as mulheres violentadas, as crianças miseráveis, as pessoas portadoras de deficiência, os negros, os homossexuais, os desempregados, os índios, os nordestinos, os analfabetos e toda uma legião de excluídos, que – forçadamente – terminam por encontrar uma terceira margem para tentar sobreviver.
E a nós, futuros doutores, médicas e médicos, Estamira faz um alerta: “Eu conheço médico direito, ela é uma copiadora.eles estão dopando quem quer que seja com um só remédio”, mais ainda “ A tua lucidez não te deixa ver...” e “ Eu quero que a minha verdade seja escutada”, assim, todas as vezes que não nos dispusermos à escuta, a compreensão ao entendimento, deixando-nos guiar apenas pela “lucidez” da técnica, dificilmente, poderemos tratar doentes – curaremos apenas a doenças, seremos uma espécie de “trocadilho” e quando se apagarem as luzes do nosso palco estaremos a ver Estamira, velha, indignada a gritar aos nossos ouvidos: Você não é inocente não, é um “esperto ao contrário”, “esperto ao contrário”!!!